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Eliana Alves Cruz destaca a importância da visibilidade da Literatura Negra no país

Eliana é autora dos premiados livros 'Água de Barrela' e 'O crime do cais do Valongo' 24/01/2022 | 16:02 Eliana Alves Cruz é carioca, jornalista e escritora. Estreou na literatura com o romance Água de Barrela, baseado na trajetória da sua família desde o século XIX, na África. Foi a vencedora da primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, oferecido pela Fundação Cultural Palmares em 2015. Eliana também é autora das obras 'O crime do cais do Valongo' e 'Nada digo de ti, que em ti não veja'. Pauta Rio: A diretora do Movimento Odarah, Fabíola Oliveira, disse em um de seus podcasts aqui no Pauta, o seguinte: "A gente sabe que a sociedade racista deseja exterminar tudo aquilo que vem da África". Diante dessa fala, gostaria que você falasse um pouco da importância de tratarmos de assuntos ligados à cultura africana na literatura brasileira. Eliana Alves Cruz: Nossa, eu concordo demais com ela. A gente tem uma história muito grande apagamento, e isso por inúmeros motivos, inúmeras razões. Desde da escravização até os nossos dias, o Brasil sistematicamente vem tentando apagar, embranquecer a cultura, embranquecer seus cidadãos, a sociedade no modo geral. Eu acho que esse é um tema central nos dias atuais por que a gente vê um movimento de negação disso tudo, de negação da história, de negação dos fatos, de reinterpretação de fatos que ocorreram, então, eu acho que a gente precisa cada vez mais trazer esse conteúdo para a literatura, até porque esse tema é muito mal tratado, no sentido de que ele não é bem abordado na nossa ficção. Temos ai muitas obras não-ficção de historiadores, de filósofos, de pensadores, mas quando a gente traz isso para o campo da imaginação - que na verdade é muito importante, pois isso fica no inconsciente coletivo, eu acho, da sociedade - a gente não vê a história negra retratada com o respeito e a dignidade que ela merece. Nós temos uma quantidade gigante de autores brancos homens, isso já é dado de pesquisa, acho que 70%, de personagens também, e os enredos acompanham a tendência. Se formos olhar apenas o que foi produzido em ficção no Brasil, na literatura, a gente não tem a história negra na sua plenitude, com todas as suas nuances e particularidades. Isso é algo que nos desumaniza porque nos tira de um fazer artístico muito importante que é a literatura. Pauta Rio: Separei uma pesquisa de um grupo de estudo em literatura brasileira contemporânea da Universidade de Brasília, e eles analisaram o seguinte: de 600 romances de autoria nacional, publicados entre 1965 e 2014 por grandes editoras, cerca de 70% são autores homens, e 90% brancos. A gente percebe que o desafio é muito grande. Que bom termos editoras como a Malê, a Pallas e tantas outras que vão surgindo e dando visibilidade tão necessária aos autores negros. Eliana Alves Cruz: O desafio é enorme porque escrever, principalmente romance que é uma narrativa mais longa e complexa, no sentido de que você tem que ter uma trama muito bem pensada, é algo difícil para todo mundo, não é uma tarefa simples. E a gente vê uma população negra cada vez mais precarizada com uma questão de tempo, inclusive, para produzir essas obras. Mas, felizmente eu vejo também muitas pessoas com muita vontade de tirar seus escritos da gaveta, principalmente mulheres, as pessoas com muita gana de superar todos os obstáculos para trazer essas histórias, colocar nas prateleiras, e que isso seja uma coisa naturalizada no Brasil. Na verdade, a gente luta pela naturalização desse presença negra na literatura. Que a gente não seja uma 'estantezinha' na livraria, um segmento, um nicho, mas que a gente esteja incorporado no fazer literário do Brasil. O que eu acho muito interessante, se a gente subir no continente, for lá para os EUA, desde o século XVIII a população negra escreve, e publica. Eu vi um dicionário, recentemente, de autoras negras americanas, 200 nomes - literalmente - 200 autoras desde o século XVIII publicando. Tudo bem, os processos são completamente distintos, tanto da escravização dos EUA como da abolição, é uma outra história. Mas isso lá não é mais uma questão, e lá realmente a população negra é minoria, aqui somos 54%, cadê a gente? Pauta Rio: Paralelo a tudo isso, a gente percebe um crescimento de espaço na literatura nacional para autores negros. Um exemplo importante que podemos citar: os dois livros mais bem vendidos na FLIP (Feira Literária Internacional de Paraty) em 2018 e em 2019 foram de autores negros. Gostaria que você falasse desse crescimento, a que se deve esse comportamento na literatura brasileira? Eliana Alves Cruz: Eu credito muito isso a algumas coisas. Uma é a lei de cotas. Porque a partir do momento em que o maior número de pessoas negras conseguiu chegar à Universidade, esse foi um conteúdo demandado por elas. E não adianta você estar sentado num banco universitário, e você não se vê retratado em nada do que você lê, do que você estuda. A lei 10.639 com todos os defeitos para a sua aplicação e deficiências também auxiliou. Tivemos quase uma década e meia de produção, e de esforço nesse sentido e debates. Então, eu acho que isso impulsionou muita gente. Já temos uma geração inteira de pessoas formadas pela lei de cotas que estão no mercado de trabalho, que estão produzindo, que estão escrevendo, isso é muito importante. E, vejo também essa natural ocupação que reflete, na verdade, uma insatisfação e uma inquietação da sociedade como um todo por representatividade. As pessoas cansaram de ser sub-representadas em todos os segmentos da sociedade. Não adianta você ser uma maioria numérica se você não está representada nos espaços de poder, e aí vamos dizer a política, a academia, o judiciário, enfim, todos os espaços em que a nação é pensada. Então, eu acho que existe uma inquietação, uma demanda, uma exigência por pensar também a sociedade brasileira. E daí vem muitos autores. Eu acho que isso passa muito pela autoestima das pessoas, esse resgate da estima, daquele "eu posso", "eu tenho capacidade, sim", a minha geração ainda sofre muito com isso, a gente ainda se sabota em muitas questões. Mas, eu vejo uma geração que já consegue superar determinados entraves, sem maiores problemas e questionamentos. Se você pensar que os Cadernos Negros - que é aquela publicação, publicada pelo Quilombhoje, de São Paulo, que é uma antologia literária, que vai para o 42o livro, ou seja, um por ano há 42 anos -, se você somar, pensar que cada edição dessa, que tem no mínimo 15 pessoas publicando... faz as contas! Só ai a gente já tem um 'montão' de gente. Inclusive, eu acho que a geração que fez os Cadernos Negros, que são: Culti, Esmeralda Ribeiro, Conceição Evaristo e Lia Vieira formam a primeira geração. Um grupo de escritores que, enfim, botaram a cara no sol. Antes, a gente tinha aqueles talentos isolados, começou lá com a Maria Firmina dos Reis, Teixeira de Souza, Cruz e Souza, Carolina Maria de Jesus, Lima Barreto, Machado de Assis, talentos assim, mas que não eram uma coisa geracional, digamos. Eu vejo esse grupo que forma Cadernos Negros como uma geração. Pessoas que chegaram para ocupar realmente um espaço. E ai viemos nós... As minhas referências, eu sou aquele menina que - acho que como todo mundo - conheceu o Machado de Assis branco, ilustrando a nota de dinheiro com aquela cara de barão de café. Descobri que ele era negro já jovem, adulta. Lima Barreto a gente sempre soube que era negro, mas o Lima Barreto também era aquele autor com aquela história de dor tão grande, de peso na história dele. A Carolina Maria de Jesus foi apagada durante muito tempo, ela faleceu, e eu era criança. E ai eu passei toda minha juventude sem saber da existência da Carolina Maria de Jesus, fui descobrir também bem mais velha. E ela é para mim uma grande referência no seguinte sentido: aquela mulher com aquela vida tão sofrida (pelo amor de Deus!) sentava, e ela sublimava todo sofrimento na escrita. Então, eu acho que ela é o maior exemplo que podemos ter quando colocamos obstáculos para realizar esse trabalho. Olha a Carolina! Olha o que ela fez! Ela tinha uma certeza tão grande do talento dela, ela queria tanto aquilo, que ela usava cada 'microsegundo' para produzir a sua literatura. Então, acho que é bem isso, a gente precisa enfrentar esse muro, essa parede que colocaram na nossa frente. Eu acho que tenho como referência a Carolina, eu tenho como referência a própria Conceição (Evaristo). A Conceição tem um cuidado com as palavras que me inspira muito, ela escolhe meticulosamente, cirurgicamente, artesanalmente as palavras, ela trabalha as palavras como, assim, ourives. E isso eu acho belíssimo. Passei a ficar mais atenta depois que comecei a ler a Conceição, com as palavras que eu uso, tanto no falar quanto no escrever. E essa questão da ligação que ela tem com o grupo que sempre prestigiou o trabalho dela, muito antes ela ser quem ela é. Porque a gente vive uma era que não basta você escrever bem, a sua obra, aquilo que você escreve tem que estar coerente com o ser humano que você é na sociedade, principalmente depois do advento das redes sociais. Eu não posso escrever determinada coisa, e ter um comportamento completamente diverso daquilo que escrevo. Ser coerente, ter um discurso coerente com aquilo que você faz e acredita, creio que é um desafio, e é uma coisa em que eu me espelho em muitas pessoas, como a Conceição. Pauta Rio: Interessante o seu relato! Assim como eles te inspiram, você certamente também inspira muitas pessoas. Você é autora de grande obras premiadas, como 'Água de Barrela' e 'O Crime do Cais do Valongo', e acaba influenciando e inspirando novos escritores em suas carreiras literárias. Gostaria que você falasse quais são os principais desafios que esses novos autores têm diante do mercado literário. Eliana Alves Cruz: Eu acho que os desafios não mudaram, eles continuam os mesmos. Acessar as editoras, a publicação, por mais que a gente tenha mais recursos, hoje você tem o recuso da auto publicação, que era muito mais difícil um tempo atrás. Mas mesmo assim é necessário recurso para isso, você tem que ter dinheiro, sem dinheiro nada acontece. Eu acho que o desafio é, primeiro sentar nessa cadeira, entender que a gente pode produzir, e superar essa exigência que a gente tem com a gente mesmo. 'A gente não pode errar', crescemos com esse estigma de que não pode errar, a gente tem que ser genial sempre, e não é assim. E a gente internaliza essa exigência, esse perfeccionismo, isso nos afasta da escrita. Então, eu acho que o passo número um é esse, desmistificar e se permitir. O passo número dois é ter um pouco de estratégia. Entender que a escrita tem um quê de inspiração, mas ela é muito trabalho, ela é disciplina - a gente faz melhor aquilo que a gente faz sempre -. Você faz um bolo toda semana, e no final de dois meses você está 'exper' naquela receita (risos). Quanto mais você escreve, melhor você fica. Obviamente, isso tudo paralelo a leitura, a vai outro obstáculo... que é o acesso aos livros. Livro não é uma coisa barata, mas também não é tão caro assim. Acho que a questão do livro no Brasil é uma questão de prioridade. A gente tem que estabelecer o que e prioridade pra gente. Tudo bem que a gente sabe de todas as dificuldades da população, não estamos falando de uma classe média, estamos falando do Brasil. R$ 20, R$ 25 num livro é muito dinheiro para muita gente, mas também existem muitas bibliotecas, existem muitos recursos para a gente acessar as obras, a gente precisa ler. Quando você lê, você abre a mente para os conteúdos, para as referências. Depois, não é só o que é dito ali, mas como é dito. Você aprende técnicas de como aquilo foi dito, como a história foi contada. E outra é simplesmente sentar e escrever. Isso parece ser uma coisa simples, mas não é. A gente tem que quebrar muitas barreiras dentro da gente para se permitir chegar nesse ponto. Por: LEANDRO RIBEIRO jornalista e editor do site Pauta Rio Instagram: @leandroribeirof leandroribeiro@pautario.com.br

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